quinta-feira, 7 de abril de 2016

Quando me deixo levar pela desordem que sinto é que elas surgem.
De repente elas começam a se mexer em mim, independentes.
Sinto-me cheia. 
Desconfortável.
É quando tudo dói.

Sei que só as gero quando há dor. 
Ou quando não há nada, que deve ser a pior dor.

Eu as temo.
Temo o que elas revelam de mim, para mim.
Sim, porque de mim elas saem, mas não me pertencem, nem me obedecem.
Sou obrigada a respeitar o que me é dito por elas/mim.  

E quanto mais eu me jogo no intenso do que vivo, mais elas se fortalecem.
É na minha instabilidade que elas criam autonomia.

No meu caos particular que as palavras nascem.
Nascem e efervescem.

Vão ebulindo com as emoções e me transcendem, me ultrapassam.
Acabam assim, jogadas e sem ordem no papel.

A intensidade não cabe em mim. É bicho e me devora.
Eu escapo por entre as linhas que escrevo, livres e desconexas, em carta para quem/ti/mim/nós/oque?

Que venham, que venham aos montes. 
Que venham turbilhões de palavras para minha fuga. 
Que me transbordem inteira porque estou perdida.
Doidamente perdida.
Doloridamente perdida.

Deliciosamente perdida. 





quinta-feira, 28 de março de 2013


Eu sou sensível ao mundo e frequentemente concluo que a vida me dói.
Hoje não foi diferente.
Há alguns minutos chorei a morte de um que não é dos meus.
Chorei a morte de um desconhecido, de um José, um Alberto, um Carlos, um Ataíde, não sei.
Chorei a morte de alguém que nem vi o rosto.
Desconfio que seja homem pela botina masculina jogada no asfalto próximo ao corpo inerte que jazia ali, na estrada, da forma mais indigna.
Não há quem mereça morte assim.
Embora coberto, aquele corpo foi alvo de pena, de susto, de horror.
A vida é um horror, não entendo porque a morte aterroriza.
Mas ali não era a morte em si, era a forma como ela se deu, a fatalidade, a tragédia que atrai o olhar dos passantes.
Eu também passei, vi, senti e chorei.
Chorei por aquele homem estendido no chão.
Perguntei-me se teria família, pais, filhos, amigos, um cachorro fiel.
Depois eu chorei outra vez.
Chorei porque sinto que ninguém é capaz de desejar que algo como aquilo aconteça.
Então, desta vez chorei pelo responsável. Pobre. É preferível morrer a ceifar a vida de alguém.
E no fim das contas me pergunto por que eu não consigo ser alheia a tudo que é alheio a mim?
Por que eu estou aqui, escrevendo sobre isso, vendo ainda aquela imagem, como naquele momento, enquanto todos os outros que passaram seguiram seus caminhos?
Não sei.

sexta-feira, 11 de maio de 2012


Dedico para minha irmã, Carol, e para minha grande amiga, Wal.

Carolina Cornelius Reichert : http://www.teatrocandeia.com

A mim só encantam as coisas de beleza simples e as pessoas sensíveis.
Não me atraem os grandes espetáculos, os máximos, os brilhos, os incríveis, mas o que quase não se vê quando se corre, quando não se discorre os olhos sobre, com atenção.
Eu amo o que é bonito sem querer, amo o que é belo por acidente e quase nunca encontro quem vê como eu.
Neste sentido, admiro as pessoas quem têm o poder de capturar o tempo. Sim, capturar o tempo. Só existe um artifício para tanto, a fotografia.
A fotografia que apreende o instante e o entrega à eternidade que durar o retrato. A fotografia que é capaz de prender o tempo, indomável para todo o resto, exceto para ela.
Eu admiro os olhos e a alma daqueles que sabem a hora certa, o ângulo certo, a luz certa para transformar e demonstrar o que há de lindo no corriqueiro.  


Carolina Cornelius Reichert
Carolina Cornelius Reichert
Carolina Cornelius Reichert
Carolina Cornelius Reichert
Walesca Timmen
Carolina Cornelius Reichert
Walesca Timmen
Walesca Timmen
Walesca Timmen
Walesca Timmen
Walesca Timmen

sábado, 28 de abril de 2012

Precisei perder um pouco de vitalidade para alcançar a serenidade e dar ao tempo permissão para me mudar.
Ainda não é paz, mas pelo menos me equilibrei.
Não me jogo mais no temporal.

domingo, 11 de março de 2012

Pois é

- Que foi?

- Nada.

- Você parece estranha.

- Não... 

- Aconteceu alguma coisa?

- Claro que aconteceu. Aconteceu o que sempre acontece. Você vai, puxa meu tapete, me derruba, leva tudo embora e me bota chorando, então eu morro, me bato, me arrebento, me despedaço e quando não tenho mais alternativa eu renasço, reconstruo tudo devagar, passinho por passinho, tentando ser doce, tentando colorir, colocando as coisas-pessoas-sentimentos-saudades-sonhos-bobagens no lugar, é aí que você reaparece, volta, bagunça a casa, tira tudo do lugar outra vez, golpeia minhas certezas, planta dúvidas no meu quintal e me devolve a esperança... para que mesmo? Pelo prazer de levar ela embora outra vez. 

- Pois é.

- É, pois é.