domingo, 27 de maio de 2018

CARTA AO MEU PAI

Faz vinte e dois dias que partiste.
Vinte e dois dias que levaste parte significativa  de mim, não sei para onde.

Realmente, desconheço o que se passa depois daqui. Mas quero crer que estás bem. Quero crer que tenhas te livrado de todas as dores e todas incertezas desse mundo material. Quero crer que possas estar a sorrir constantemente e que em ti nao fira a saudade como fere em nós. Quero também crer que estará a minha espera quando eu partir e que o abraço que me protegia voltará a me envolver, depois, depois que minha missão aqui tiver se cumprido.

Vinte e dois dias depois eu ainda não sei quem sou sem tua presença física.
Ainda me sinto a esmo quando vêm os meus temores.

Talvez passem vinte e dois anos e eu não volte a me encontrar.

Quando adoeceste algo em mim se quebrou. Quando adoeceste, eu também adoeci. Fomos uma família com câncer. Fomos uma família em químio. Fomos uma família com dor.

Quando adoeceste eu tive certeza que a vida não é justa. O sofrimento por aqui não é imputado por "merecimento". Conheço tanta gente má que nem pega gripe! Porque o homem mais amável e empático  que já conheci passaria por tanta lástima?

Me perguntei tantas vezes onde  estava  Deus.
Me revoltei.
E tu só me dizias que não havia porque se revoltar. Que o tempo faria eu encarar essas situações com mais serenidade. Tu me dizias que o problema estava aí.. que só tinhamos que enfrentar da melhor maneira.

Vou tentando levar isso pra minha vida. Tenho medo de esquecer a lição sem que tu estejas aqui pra me passar sempre essa receita de resignação  e força pacata. 
Tu sempre soube que às  vezes sofro mais por adotar uma postura  combativa diante de certos problemas. Mas eu entendi o que querias me dizer, pai. Vou buscar a tua serenidade. 


Quando adoeceste tambem conheci o tamanho da hipocrisia de alguém.  Mas nessa hora tu foi perdão. E me pediu para esquecer  também. Juro, pai, tenho feito muita força  para perdoar .  Mas é complicado. Tu deu a outra face. Tu sim foi um Cristão exímio, sem necessariamente  ter que esfolar os joelhos na igreja toda semana.

Talvez algum um dia eu também alcance esse teu nível de compaixão.

Quando a morte veio, de certa forma também morri.  A Ramona nunca mais será a mesma.

Nossa dor segue. E segue o vazio. E segue a casa silenciosa, sem gargalhada. E segue o escritório sem bagunça. E seguem as crianças da creche passando em frente, mas agora sem abanar pra ti.
O grêmio continua jogando, mas tua camiseta fica no armário.
A política no país cada vez mais estapafúrdia e eu não consigo entender, porque tu não está ao meu lado para confabular e ler as entrelinhas.

Pai, eu sinto dor e queria teu colo.
Eu sei extamante o que irias me dizer. Mas eu quero ouvir. Voz. Tua voz falta. Nem que seja pra me dizer pra "deixar de ser boba".

Sabe pai, o gramado aqui em casa fechou, bem do jeito que tu queria. Ficou  bonito. Ainda lembro da ultima vez que conseguiste vir olhar. Realmente foi muito bom teres pedido ao teu amigo para vir limpar.
Também caiu um raio aqui em casa há uns dez dias e foi uma tremenda confusão. Tudo certo agora, mas o susto foi grande. Teria ligado para ti na mesma hora (como quando fui roubada ou quando fiquei empenhada com o carro ou como em tantas outras situaçoes quase que diárias), mas não rolou né.
Semana passada os caminhoneiros do país começaram greve. Os petroleiros já anunciaram paralizaçao de pelo menos 72h para semana que vem. Estamos sem gasolina, gas, ja começam a faltar mercadorias na cidade. A mídia parece estar alimentando. O pior é não saber se é mesmo revolta popular (legítima) ou se estamos sendo massa para mais uma manobra. Precisava da tua opinião, da tua leitura da situação.

Pai, eu me sinto uma criança assustada. Sempre tive medo da vida. Mas agora  é pior. Eu me sentia segura quando tu me davas o norte. E agora???

Tu sabes que não vou me entregar. Mas fraquejo.

Bom, não preciso dizer aqui o quanto  te amo,  quanto te admiro e como tu foi um baita paizão! Não preciso porque disse isso incontáveis  vezes olhando nos teus olhos.
Mas gostaria que tivesses acesso a essas palavras ou ao menos sentisse minha intenção. 

Hoje eu queria parecer mais contigo.

Mas sou tua semente aqui. Prometo tentar sempre fazer florecer o amor, a paz, a justiça, o bem e a compaixão que me ensinaste.

Amor, da tua filhotona.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Onde foi parar?

Onde foi parar?

Em qual escolha se afastou tanto de si?

Em qual esquina se perdeu de vista para nunca mais?

Cadê a poesia? O dramalhão? A rebeldia? Os questionamentos? A resistência? Cadê os cadernos rabiscados de versos? Os grifos nos livros, a Tempestade tocando e tocando? Cadê o ócio criativo e toda aquela gente barulhando por perto?
"teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais, faríamos floresta no deserto".

Onde foi que se prendeu na caixa?

Sempre teve uma tendência ao padrão, mas ao menos relutava.

Quem é essx medíocre social, suando dinheiro afundadx nas mazelas alheias?

De que vale tanta coisa se quando o dia acaba, acabaram também as forças pra existir?

O que existe quando a essência se dissipou?

Desenforamadx, no formato. Sobrevivendo.


quinta-feira, 7 de abril de 2016

Quando me deixo levar pela desordem que sinto é que elas surgem.
De repente elas começam a se mexer em mim, independentes.
Sinto-me cheia. 
Desconfortável.
É quando tudo dói.

Sei que só as gero quando há dor. 
Ou quando não há nada, que deve ser a pior dor.

Eu as temo.
Temo o que elas revelam de mim, para mim.
Sim, porque de mim elas saem, mas não me pertencem, nem me obedecem.
Sou obrigada a respeitar o que me é dito por elas/mim.  

E quanto mais eu me jogo no intenso do que vivo, mais elas se fortalecem.
É na minha instabilidade que elas criam autonomia.

No meu caos particular que as palavras nascem.
Nascem e efervescem.

Vão ebulindo com as emoções e me transcendem, me ultrapassam.
Acabam assim, jogadas e sem ordem no papel.

A intensidade não cabe em mim. É bicho e me devora.
Eu escapo por entre as linhas que escrevo, livres e desconexas, em carta para quem/ti/mim/nós/oque?

Que venham, que venham aos montes. 
Que venham turbilhões de palavras para minha fuga. 
Que me transbordem inteira porque estou perdida.
Doidamente perdida.
Doloridamente perdida.

Deliciosamente perdida. 





quinta-feira, 28 de março de 2013


Eu sou sensível ao mundo e frequentemente concluo que a vida me dói.
Hoje não foi diferente.
Há alguns minutos chorei a morte de um que não é dos meus.
Chorei a morte de um desconhecido, de um José, um Alberto, um Carlos, um Ataíde, não sei.
Chorei a morte de alguém que nem vi o rosto.
Desconfio que seja homem pela botina masculina jogada no asfalto próximo ao corpo inerte que jazia ali, na estrada, da forma mais indigna.
Não há quem mereça morte assim.
Embora coberto, aquele corpo foi alvo de pena, de susto, de horror.
A vida é um horror, não entendo porque a morte aterroriza.
Mas ali não era a morte em si, era a forma como ela se deu, a fatalidade, a tragédia que atrai o olhar dos passantes.
Eu também passei, vi, senti e chorei.
Chorei por aquele homem estendido no chão.
Perguntei-me se teria família, pais, filhos, amigos, um cachorro fiel.
Depois eu chorei outra vez.
Chorei porque sinto que ninguém é capaz de desejar que algo como aquilo aconteça.
Então, desta vez chorei pelo responsável. Pobre. É preferível morrer a ceifar a vida de alguém.
E no fim das contas me pergunto por que eu não consigo ser alheia a tudo que é alheio a mim?
Por que eu estou aqui, escrevendo sobre isso, vendo ainda aquela imagem, como naquele momento, enquanto todos os outros que passaram seguiram seus caminhos?
Não sei.

sexta-feira, 11 de maio de 2012


Dedico para minha irmã, Carol, e para minha grande amiga, Wal.

Carolina Cornelius Reichert : http://www.teatrocandeia.com

A mim só encantam as coisas de beleza simples e as pessoas sensíveis.
Não me atraem os grandes espetáculos, os máximos, os brilhos, os incríveis, mas o que quase não se vê quando se corre, quando não se discorre os olhos sobre, com atenção.
Eu amo o que é bonito sem querer, amo o que é belo por acidente e quase nunca encontro quem vê como eu.
Neste sentido, admiro as pessoas quem têm o poder de capturar o tempo. Sim, capturar o tempo. Só existe um artifício para tanto, a fotografia.
A fotografia que apreende o instante e o entrega à eternidade que durar o retrato. A fotografia que é capaz de prender o tempo, indomável para todo o resto, exceto para ela.
Eu admiro os olhos e a alma daqueles que sabem a hora certa, o ângulo certo, a luz certa para transformar e demonstrar o que há de lindo no corriqueiro.  


Carolina Cornelius Reichert
Carolina Cornelius Reichert
Carolina Cornelius Reichert
Carolina Cornelius Reichert
Walesca Timmen
Carolina Cornelius Reichert
Walesca Timmen
Walesca Timmen
Walesca Timmen
Walesca Timmen
Walesca Timmen